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Amor-próprio: mito ou realidade?

  • Foto do escritor: Arthur Mello
    Arthur Mello
  • 16 de jan.
  • 3 min de leitura

“Você precisa se amar mais.”


A frase é repetida como um mantra. Parece simples, quase uma solução mágica para dores profundas. Mas, do ponto de vista psicológico, a pergunta que importa não é se o amor-próprio existe — e sim como ele se constrói.


Será que amar a si mesmo é algo natural? Ou seria um ideal quase impossível de sustentar o tempo todo?


Freud: amar a si não é tão simples assim


Freud nos ajuda a desmontar a ideia de um amor-próprio constante e estável. Para ele, o amor dirigido a si mesmo passa pelo narcisismo, que não é apenas vaidade, mas uma etapa fundamental do desenvolvimento psíquico.


O problema surge quando o sujeito fica aprisionado entre se exigir demais ou se sentir insuficiente. O amor-próprio, então, oscila: ora inflado, ora completamente esvaziado.

Isso explica por que muitas pessoas se cobram tanto para “se amar”, mas vivem em permanente autocrítica. Não é falta de força de vontade — é conflito psíquico.


Lacan: o amor-próprio passa pelo olhar do outro


Lacan aprofunda essa discussão ao mostrar que nossa imagem de nós mesmos se constrói, desde cedo, no espelho do outro. Aprendemos quem somos a partir do olhar, do desejo e do reconhecimento alheio.


Por isso, o amor-próprio não nasce isolado. Ele é atravessado pela pergunta:

“Sou desejável?”

“Sou suficiente para o outro?”


Quando essa construção fica muito dependente da validação externa, amar a si mesmo vira uma tarefa impossível — sempre falta algo, sempre é preciso provar mais.


Jung: integrar o que rejeitamos em nós


Jung propõe uma ideia potente: amar a si não significa gostar apenas das partes “bonitas” da personalidade. O verdadeiro trabalho psíquico envolve olhar para a sombra — aquilo que negamos, reprimimos ou julgamos em nós mesmos.


Nesse sentido, amor-próprio não é autoestima elevada o tempo todo, mas capacidade de se reconhecer inteiro, inclusive nas falhas, ambivalências e contradições.


Negar a própria sombra pode parecer proteção, mas cobra um preço emocional alto.


Winnicott: o amor-próprio nasce no cuidado


Winnicott traz talvez uma das contribuições mais sensíveis sobre o tema. Para ele, o sentimento de valor pessoal se constrói a partir de experiências precoces de cuidado suficientemente bom.


Quando alguém foi visto, acolhido e respeitado em sua espontaneidade, torna-se possível desenvolver um senso interno de segurança. O amor-próprio, então, não é um discurso, mas uma experiência vivida.


Por outro lado, quando esse cuidado falha, o sujeito aprende a se adaptar demais, a agradar, a silenciar necessidades. Amar a si mesmo passa a soar estranho, distante, quase inacessível.


Então, amor-próprio é mito?


Talvez o mito esteja na ideia de um amor-próprio perfeito, constante e independente do outro. O que existe, na realidade, é um processo: instável, atravessado por histórias, vínculos e conflitos.


Amar a si mesmo não significa nunca duvidar, nunca se criticar ou nunca sofrer. Significa, muitas vezes, não se abandonar quando dói.


Onde entra a psicoterapia?


A psicoterapia não ensina fórmulas prontas de amor-próprio. Ela oferece algo mais profundo: um espaço onde o sujeito pode reconstruir a relação consigo mesmo a partir da escuta, da elaboração e do reconhecimento de sua história.


É nesse espaço que se torna possível:


  • compreender por que se é tão duro consigo

  • elaborar feridas narcísicas antigas

  • diferenciar exigência de cuidado

  • construir um vínculo mais vivo e verdadeiro consigo mesmo


Se amar fosse simples, não doeria tanto. Se fosse natural, não precisaria ser aprendido.

Talvez o amor-próprio não seja um mito, mas também não seja um ponto de chegada. Ele é um caminho — e, às vezes, precisa ser percorrido acompanhado.



Arthur de Mello Gonçalves

Psicólogo

CRP 05/67885




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