Por que nos apaixonamos? Um olhar psicológico.
- Arthur Mello

- 21 de jan.
- 2 min de leitura
Atualizado: 22 de jan.
A paixão costuma chegar sem pedir licença. Quando percebemos, estamos pensando demais, sentindo intensamente, idealizando, esperando mensagens, criando expectativas. E então surge a pergunta: por que nos apaixonamos desse jeito?
Do ponto de vista psicológico, apaixonar-se não é apenas encontrar alguém interessante. É, sobretudo, reencontrar algo de nós mesmos no outro.
A paixão não nasce só no presente
Quando nos apaixonamos, não nos conectamos apenas com quem a pessoa é hoje, mas com aquilo que ela desperta em nossa história emocional. Gestos, olhares, formas de falar e de se ausentar ativam experiências afetivas muito antigas, muitas vezes inconscientes.
Por isso, às vezes, a intensidade parece desproporcional. Não é só sobre o outro — é sobre o que foi tocado dentro de nós.
A psicanálise nos ajuda a entender que a paixão carrega traços das primeiras relações de cuidado, amor, falta, frustração e desejo. É como se algo familiar reaparecesse, mesmo que não saibamos exatamente o quê.
O outro como promessa de completude
Na paixão, o outro costuma ocupar um lugar especial: o de quem parece preencher faltas, aliviar vazios ou oferecer sentido. Surge a fantasia — muitas vezes inconsciente — de que, com aquela pessoa, algo finalmente se encaixa.
Esse movimento não é errado, nem patológico. Ele faz parte da condição humana. O risco está quando nos perdemos de nós mesmos tentando sustentar essa fantasia, silenciando necessidades, limites e dores para não perder o vínculo.
Amar, então, passa a doer.
Por que algumas paixões machucam tanto?
Nem toda paixão se transforma em sofrimento, mas quando isso acontece, geralmente há repetições em jogo:
relações marcadas por insegurança
medo intenso de abandono
idealização excessiva
dificuldade de sustentar frustrações
necessidade constante de validação
Esses padrões não surgem do nada. Eles se constroem ao longo da vida e encontram, na paixão, um terreno fértil para se manifestar.
Por isso, muitas pessoas dizem:
“Eu sempre me envolvo com o mesmo tipo de pessoa”
“Eu sei que vai dar errado, mas não consigo sair”
“Quando me apaixono, deixo de ser eu”
A psicoterapia como espaço para compreender o amar
A psicoterapia não ensina a deixar de se apaixonar, mas oferece um espaço para entender como e por que você ama da forma que ama.
É na escuta clínica que o sujeito pode:
reconhecer seus padrões afetivos
diferenciar desejo de repetição
elaborar feridas emocionais antigas
construir vínculos mais conscientes e possíveis
Amar não precisa significar se anular, se perder ou se machucar constantemente.
Às vezes, compreender a própria forma de se apaixonar é o primeiro passo para viver relações mais verdadeiras — com o outro e consigo mesmo.
Se você sente que suas paixões têm sido fonte de sofrimento, confusão ou repetição, talvez seja hora de olhar para isso com mais cuidado.
Buscar ajuda é um gesto de coragem emocional. E entender por que nos apaixonamos pode ser também um caminho para aprender a se escolher.


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